Eduardo Montans de Sá

9 de maio de 2013

Escritor

 

CEBID: Em seu livro “Abrindo o baú”, você diz o seguinte: “Minha mãe teve uma gravidez praticamente tranquila, o problema foi o parto. Eu passei da hora de nascer e sofri uma anoxia fetal. Hoje eu sou um cara PC, isto é, tenho uma paralisia cerebral”. Você poderia explicar o que isso significou na sua vida, ou seja, a partir desse fato, quais foram as suas limitações? E, como você reagiu a esta realidade?

Eduardo Montans de Sá: Meu nome é Eduardo Montans de Sá e, agora, vou descrever os fatos que ocorreram e foram responsáveis pela minha atual condição, sob o meu ponto de vista e não como os outros vêem. Tudo começou por uma soma de erros. O primeiro foi no atraso em meu nascimento. O que para muitos pode parecer óbvio, para um grande médico de Ribeirão Preto não foi. Além do atraso no nascimento, aos sete meses de gestação, o ginecologista verificou que havia algo estranho na barriga da minha mãe, mas nenhuma providência foi tomada para que isso fosse investigado. Na hora de nascer, eu virei, ficando na posição contrária e, devido à agilidade dos médicos presentes, quando foi realizado o diagnóstico de que seria necessária a cesariana, já era tarde, tornando o parto um risco para minha mãe. Com isso, eu nasci com Fórceps e também com o cordão umbilical enrolado no pescoço, fazendo com que o oxigênio não chegasse ao cérebro e, sendo ele como um quadro de energia que temos em casa, onde cada fio é responsável por um lugar, com a falta de oxigênio alguns fios se queimam, no meu caso os queimados foram os responsáveis pela parte motora e não pela parte intelectual. Hoje eu vivo em uma cadeira de rodas, sem falar, sem fazer quase nada. Não tomo banho sozinho, não troco de roupa, tampouco me alimento sozinho, mas em compensação eu vejo, escuto, sinto e penso como qualquer outro homem da minha idade e faço algo que me dá muito prazer que é escrever. Tenho três livros publicados e espero poder continuar escrevendo com a mesma vontade e dedicação de sempre.

CEBID: Diante do contexto de uma paralisia cerebral, como se deu sua alfabetização?

Eduardo Montans de Sá: Minha alfabetização se deu na AACD (Associação às Crianças Deficientes).  Havia uma professora maravilhosa, que ensinava as palavras da cartilha mostrando os objetos que elas representavam  e, com isso, o aprendizado foi mais rápido. Também estudei na Quero-Quero, uma escola com proposta construtivista. Tive a liberdade para criar e me expressar na hora que desejava, o que foi muito favorável e estimulante para que eu pensasse em escrever um livro. De repente me tornei poeta nesse lugar mágico, usando sempre o sistema de símbolos gráfico-visuais Bliss, que é um método canadense de comunicação, em que se utiliza uma prancha com símbolos. Na minha prancha tenho muitas palavras, fora as letras que compõem o alfabeto e as indicações de acentuação e pontuação.

CEBID: Você escreveu vários livros: romance, contos e poesia. Como essa atividade é desenvolvida, já que não há coordenação motora da sua parte? Qual é a sua fonte de inspiração?

Eduardo Montans de Sá: O primeiro livro que eu escrevi  foi de poesia –  “Magia Poética”.   O segundo foi uma autobiografia “Abrindo o Baú” e, depois, um romance de suspense, “O desprezível”.  Realmente não possuo coordenação motora e, também, não falo. Para desenvolver minhas ideias, necessito de um interlocutor. As frases vão sendo construídas aos poucos. É um processo lento que demanda paciência e atenção. Formo palavras através da minha prancha e/ou do alfabeto, que é falado por quem me auxilia. Quando a letra certa é pronunciada, manifesto com a cabeça. E assim, bem devagar, o texto vai tomando corpo. Minha inspiração é a vida. Nasci no seio de uma família comum, de classe média e, como todas, temos nossos momentos de alegria, de tristeza, de solidariedade e desavenças. É nesse ambiente que vivi e vivo. Estou cercado de pessoas que me apóiam e me amam, e isso é fundamental para minha inspiração. A dedicação da minha mãe e irmãos, o carinho de familiares e amigos, o contato com professores e terapeutas, estimulam o meu crescimento. A vontade de me comunicar com eles e estar ao lado deles é muito importante no meu dia a dia. Assim, procuro ter uma vida como a de qualquer outra pessoa, ainda que tenha limitações. Leio, escuto música, de preferência jazz, saio com amigos, faço fisioterapia. São os fatos do dia a dia que me levam a escrever.Apesar de ser extremamente dependente no que concerne à parte física, tenho autonomia para tomar decisões no meu dia a dia. Minha família respeita minhas vontades e opções. Entendem que sou um deficiente que pensa, sonha e, principalmente, sente. Entendem que a paralisia cerebral não é uma doença e, muito menos, uma deficiência mental. Em razão disso, a vida fica mais leve. Não me sinto tolhido em escolhas. E, assim, com o espírito livre, escrevo com prazer.

CEBID: Você foi aluno ouvinte no curso de jornalismo da USP. Foi difícil o ingresso na instituição? Você defendeu uma monografia de fim de curso. Vemos, a todo momento, alunos sem qualquer limitação física não levando a sério o trabalho de conclusão de curso. O que te levou a pensar em concluí-lo? Qual o tema escolhido?

Eduardo Montans de Sá: Sim, fui.  Mas antes de começar as aulas, tivemos que conversar com os professores de cada matéria e, felizmente, fui bem aceito. Apenas um professor não concordou com a minha presença em sala de aula. Ir para a USP foi muito bom, porque pude vivenciar coisas novas, como estabelecer contato com outros alunos, o que se dava nos intervalos de aula, e aprender muito. Acho que nunca havia passado pela minha cabeça fazer um curso superior, pelas dificuldades que tenho. Talvez por isso tenha me sentido tão bem em saber que, mais uma vez, superei dificuldades, assumi minha vontade e tornei tudo aquilo possível. Claro, que com a ajuda de muitos. Prestava atenção nas aulas e, como tenho boa memória, processei bem as informações que me foram passadas. Como já disse, tenho verdadeira paixão por música, e me senti muito atraído pela matéria “Rádio e Televisão”. Resolvi que escreveria um trabalho de conclusão cujo tema foi “Influência da Música Popular nos Anos de Repressão”. O professor foi muito receptivo e meu contato com ele se deu através de e-mails. No final, apresentei a monografia através de power point. Foi uma vitória para mim. Agora, estou em busca de novos objetivos. É assim que eu vivo.

Equipe Cebid

Centro de Estudos em Biodireito
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