Quem você vai ser quando morrer?

18 de julho de 2019

Dois especialistas contam como os cuidados paliativos merecem ter cada vez mais espaço, até por conferirem autonomia ao paciente com uma doença grave.

Cuidar de um paciente não envolve apenas buscar uma cura. (Ilustração: Veridiana Scarpelli/SAÚDE é Vital).

A caminhada no adoecimento nem sempre é agradável. Medicamentos, internações, exames, cirurgias, quimioterapia… Os tratamentos médicos, apesar de se proporem a aumentar a expectativa de vida, eventualmente podem causar mais sofrimento que a própria doença. Como fica a pessoa e sua família no meio disso tudo?

Atualmente, os pacientes estão cada vez mais informados. O que eles não ouvem dos médicos, descobrem sozinhos na internet. Mesmo cercados de informação, falta o apoio para a tomada de decisões e a organização dos cuidados. Além disso, um doente crônico muda a dinâmica da família, além de gerar novos cuidados para os quais muitos de nós não fomos treinados. Quem está preparado para trocar uma fralda ou dar banho em um adulto acamado? Some a isso a carga emocional que é cuidar de um familiar adoecido e que, apesar dos cuidados, irá morrer em breve.

Para auxiliar nesse momento, existe uma área na saúde chamada de cuidados paliativos, que ganhou espaço no Brasil nos últimos 30 anos e que se preocupa com a pessoa adoecida, e não necessariamente com a cura das doenças. Os cuidados paliativos têm a intenção de atender as pessoas integralmente e suas famílias, independentemente da fase da doença e do prognóstico. Claro, se a cura é possível, devemos olhar para ela – mas não apenas para ela.

Diante desse paradigma, é possível ter escolhas diante do final da vida. Para isso, é preciso fazer algo que quase ninguém quer fazer: pensar sobre a própria morte e se programar para ela.

A autonomia é um valor presente no Código de Ética Médica e que tem sido valorizado ao longo dos tempos. Uma pessoa é autônoma quando compreende a própria realidade, é informada dos riscos e benefícios de uma opção e, então, define o caminho a percorrer. Nos cuidados paliativos, a equipe conversa com o paciente e compreende o que ele entende da sua vida. Às vezes o tratamento proposto é rejeitado pelo indivíduo – repito, desde que esclarecido – e poderá ser suspenso. Só não confunda suspender um tratamento com abandonar a pessoa.

Existem conceitos como a ortotanásia, distanásia e eutanásia, que devem ser claros e são frequentemente associados aos cuidados paliativos. A morte digna está associada ao termo ortotanásia, que significa boa morte ou morte correta. Seria a morte no tempo que ela tem que acontecer, sem alterar o processo natural nem apressar ou retardar a morte. Em termos práticos, seria não prolongar a vida artificialmente por meio de equipamentos ou remédios quando a doença é extensa, grave e potencialmente incurável.

Diferentemente disso, a distanásia tem a proposta de prolongar a vida a qualquer custo, ou seja, usar os recursos disponíveis independentemente de a pessoa ter chances de melhora. O objetivo é adiar a morte a qualquer custo.

Já a eutanásia é o ato de tirar a vida – o termo significa morte sem dor ou sem sofrimento desnecessário. Atualmente, ela é entendida como uma prática para abreviar a vida, a fim de aliviar ou evitar o sofrimento do paciente.

Pois bem: o Código de Ética Médica brasileiro, que entrou em vigor em 2019, estimula a ortotanásia, apesar de não criminalizar a distanásia, e segue condenando a eutanásia. Legalmente, a eutanásia é crime no Brasil, caracterizado como homicídio.

 

Extraído de: Abril.


CEBID – Centro de Estudos em Biodireito

Samuel Júnior

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