Os humanos já tratam robôs como gente e há explicação para isso

5 de setembro de 2018

Qual seria a sua reação se visse um robô ser maltratado? Há pouco mais de dois anos, quando a Boston Dynamics  publicou um vídeo de uma nova versão do seu robô humanoide, o Atlas, muitas pessoas se incomodaram com o fato de que, durante seus testes, a máquina era submetida a maus-tratos.

Alguns comentários do vídeo no YouTube diziam que o robô “se vingaria um dia” e que “se eu fosse o robô, socaria esse cara no chão”.

O que pode parecer uma mera “solidariedade” dos espectadores do vídeo, na verdade, tem uma explicação bem concreta e científica. Isso tem a ver com a capacidade dos robôs de despertarem empatia. E a uma mania constante dos seres humanos de praticar o antropomorfismo, que é o de atribuir características e comportamentos humanos a seres inanimados e animais.

Quer exemplos? Praticamos o antropomorfismo quando dizemos que uma planta está triste quando não recebe água, ou que determinado carro tem “olhos agressivos” e por aí vai.

Quando se trata de robôs, essa lógica também se aplica. E, no caso específico de robôs humanoides, a situação fica ainda mais crítica.

“A similaridade é um fator que cria o antropomorfismo”, diz o psicólogo da Universidade de Clermont Auvergne, Nicolas Spatola. Ele é um dos autores de um estudo chamado “Not as bad as it seems: When the presence of a threatening humanoid robot improves human performance” (“Não é tão ruim quanto parece: quando a presença de um robô humanoide ameaçador melhora a performance humana”), que trata sobre como os humanos podem ser emocionalmente impactados pelos robôs.

E por que nós somos mais suscetíveis a interações sociais com robôs humanoides? “Uma possível resposta seria ‘porque nós somos humanos'”, diz Spatola.

“De fato, nossa forma de interagir, de ver, de entender os comportamentos, sentimentos e emoções dos outros é algo que se baseia no nosso corpo. Nós todos temos similaridades físicas que nos permitem, por exemplo, saber que alguém está triste quando está chorando. Você já experimentou aquilo. Quando interagimos com robôs, a tendência é que a gente faça isso da forma que estamos acostumados a fazer”.

Esse tipo de postura acaba fazendo com que nós, humanos, busquemos interações o tempo todo. E isso se reflete na busca por criar robôs que sejam capazes de interagir, que desenvolvam capacidades sociais e demonstrem emoção.

Uma mostra disso foi um estudo conduzido na Inglaterra por universidades de Bristol e de Londres que mostrou que as pessoas tendem a preferir robôs capazes de se expressar, mesmo que isso signifique uma máquina menos eficiente em sua função.

Mais surpreendente do que isso foi o fato de que, ao final da interação, o robô menos eficiente, mas mais “comunicativo”, pedia um emprego para os participantes. Diversos deles afirmaram que pensaram duas vezes antes de falar “não” – e, consequentemente, chatear o robô.

“Mesmo que nós usemos robôs apenas para entender os humanos por meio de modelos físicos e cognitivos, nós ainda nos esforçamos para criar novos seres sociais”, explica Spatola. O resultado disso, como  o próprio estudo do psicólogo mostra, é que em certas condições os seres humanos são capazes de notar a presença de um robô da mesma forma que se estivessem próximos de um humano.

Para concluir o estudo, Spatola e sua equipe reuniram pessoas que passariam por um teste de concentração, enquanto eram observados por Meccanoid, um robô. Após terminarem, eles conversariam com a máquina, que poderia dar respostas gentis ou agressivas. Em seguida, os participantes precisavam repetir o teste.

O resultado do experimento mostrou que aqueles que receberam respostas mais ríspidas de Meccanoid acabaram se esforçando mais e melhorando seu desempenho no segundo teste, como se estivessem se sentido cobradas pelo robô. Ou seja, um robô pode magoar você.

Robôs de estimação

Recentemente a Sony anunciou que lançará a nova geração do robô-cão Aibo nos Estados Unidos, por um  preço equivalente a R$ 12,5 mil. É uma quantia considerável, mas a empresa se dará bem caso o mercado norte-americano se comporte da mesma maneira que o japonês, onde o pequeno robô-cão já vendeu 20 mil unidades desde o início deste ano.

Ou seja: os humanos “se empolgam” mesmo com robôs que não sejam humanoides, mas que também se pareçam com bichinhos. Spatola acredita que, com avanços em inteligência artificial e aprendizado de máquina, os humanos tendem a repetir com “robôs de estimação” o mesmo comportamento que têm com cães gatos e outros animais.

“Nós podemos amar robôs que não sejam humanoides. Hoje, robôs ainda não têm capacidade suficiente de interação, mas se repararmos a reação de pessoas enquanto elas assistem ‘Wall-E’ [filme de animação que conta a história de um robô criado para limpar o planeta Terra, que está coberto de lixo], nós entendemos que um visual simples e um comportamento podem ser suficientes para que haja esse tipo de apego”.

Porém, esse tipo de afinidade pode ser quebrada pelo chamado “vale da estranheza”. Trata-se de um conceito observado pelo professor japonês de robótica Masahiro Mori que diz que há um ponto no qual robôs muito semelhantes aos seres humanos, mas com trejeitos não-humanos muito notáveis, tendem a causar repulsa nas pessoas.

Uma vez que o “vale” é superado, a empatia retorna. “As pessoas tendem a gostar do robô mais evoluído. Quando nós vemos um robô avançado com forma humana, nós esperamos que sua capacidade seja igualmente avançada. Caso contrário, ficamos desapontados”, diz Spatola.

Isso, portanto, seria uma espécie de efeito colateral do antropomorfismo. Ou seja: quando associamos comportamentos humanos a qualquer ser ou objeto que não seja humano, esperamos uma reação condizente com a que teríamos.

Espelho dos homens

Spatola acredita que o futuro das interações entre humanos e robôs dirá muito sobre a nossa espécie. “Por exemplo: estão sendo criados robôs projetados para o sexo, mas não há leis que determinem qual rosto, formas ou idade eles representarão. Tecnicamente, você pode comprar um robô hoje e agredi-lo conforme você quiser e, por enxergar eles apenas como uma ferramenta, não ver problemas em fazer isso”.

De acordo com o especialista, isso tende a mudar conforme os robôs evoluem e regras são criadas. “Quem pagaria para machucar um robô que reage com medo ou expressões de dor? Nós podemos criar um ‘Westworld’ [referência à série de TV que retrata um parque temático que simula o Velho Oeste habitados por robôs que estão totalmente à mercê dos visitantes humanos] se enxergarmos esses robôs como uma ferramenta para fazermos o que não podemos fazer com outros humanos.”

Outro receio é que, com o tempo, os robôs passem a ser alvo de comportamentos nocivos dos humanos. Um exemplo disso foi um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Canterburry (Nova Zelândia), Guizhou (China), Victoria (Austrália) e Bielefeld (Alemanha), que mostrou que humanos podem, sim, despejar em robôs questões como preconceito racial.

Nesse estudo, especificamente, 89% dos participantes entenderam que o robô pertencia a um grupo racial devido à cor de sua pintura, sem que os pesquisadores fizessem qualquer associação das máquinas ao conceito racial. E, o pior: as pessoas demonstraram uma atitude mais hostil contra robôs na cor preta.

No final das contas, as interações entre humanos e robôs ainda serão estudadas por muitos anos. . Ao ser perguntado se ele vê um crescimento no futuro de áreas da psicologia que estudem essas relações, Spatola responde que espera que sim, caso contrário ele “terá que achar um novo emprego”. Ele também vê que o desenvolvimento dessa área depende não apenas de conhecimento técnico de engenharia, mas também de uma boa dose de filosofia.

“Isso vai moldar nossa sociedade no futuro, então os cientistas precisam encontrar respostas para propor formas melhores de incluir robôs no nosso ambiente social. Eu espero que eles tenham a mente aberta para ouvir o que outras áreas podem propor sobre o tema”.

É algo que, certamente, nós também esperamos.

 

Extraído de: Uol.


CEBID – Centro de Estudos em Biodireito

Samuel Júnior

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