A mulher que doa em vida seus órgãos a estranhos

2 de março de 2017

Tracey Jolliffe já doou um rim, 16 óvulos e mais de 45 litros de sangue e, agora,

 pretende doar parte de seu fígado também.

Tracey Jolliffe já doou um rim,
16 óvulos e mais de 45 litros de sangue e pretende deixar seu cérebro para ser
estudado pela ciência. Agora, também quer doar parte de seu fígado para alguém
que não conhece.
“Se tivesse mais um rim
extra, o doaria também”, disse ela ao programa Victoria Derbyshire, da
BBC.
Tracey é uma “doadora
altruísta” – como são chamadas na Grã-Bretanha pessoas dispostas a dar um
órgão para salvar a vida de um desconhecido.
Ela é microbióloga e trabalha no
NHS, o sistema de saúde público britânico. Seus pais eram enfermeiros, e Tracey
passou a vida ouvindo sobre a importância da assistência médica sob um ponto de
vista profissional.
Mas ela também está determinada a
fazer a diferença a nível pessoal. “Eu me registrei como doadora de sangue
e de medula quando tinha 18 anos”, conta.
Hoje aos 50 anos, ela continua
disposta a doar o que pode.
Em 2012, ela foi uma das menos de
cem pessoas no Reino Unido a doar um rim sem saber quem o receberia – e, agora,
apoia a organização de caridade Give a Kidney (Doe um Rim, em inglês), que
incentiva outros a fazerem o mesmo.
Até 30 de setembro de 2016, 5.126
estavam na fila de espera por um rim no NHS, em que o tempo médio de espera é
de três a quatro anos.
No Brasil, o número é quase
quatro vezes maior: eram 20 mil pessoas, entre adultos e crianças, até março de
2016, que aguardavam um rim, segundo os dados mais recentes da Associação
Brasileira de Transplante de Órgãos.
É de longe o órgão mais
requisitado. De todos os pacientes à espera por um transplante de órgãos no
Brasil, 58,7% aguardam por um rim – enquanto 4,2% precisam de uma doação de
fígado, o segundo mais demandado na lista.
‘Processo complexo’
Diferentemente da maioria dos
transplantes, uma pessoa pode estar viva para doar um rim, porque só precisa de
um dos dois existentes para sobreviver.
O rim doado por Tracey
provavelmente salvou a vida de uma pessoa. “Eu me lembro disso todo dia
quanto acordo”, diz ela, orgulhosa.
No entanto, não foi uma decisão
impulsiva. Doar um rim é um “processo complexo”, diz ela, já que as
avaliações das condições do doador levam até três meses para serem feitas.
Isso inclui exames de raio-X,
cardíacos e de funcionamento do órgão, por meio de uma série de testes de
sangue. “Não é algo que você faz se tem medo de agulhas”, ela brinca.
Os riscos associados à doação de
rim são baixos se o doador estiver saudável, com uma taxa de mortalidade de uma
para cada 3 mil pacientes – o mesmo de remoções de apêndice.
O NHS diz ainda que a maioria dos
doadores de rim tem uma expectativa de vida equivalente – ou maior – do que a
média geral das pessoas.
Tracey conta ter ficado internada
no hospital por cinco dias após a operação e que sua vida “voltou ao
normal” após seis semanas.
Segundo a ONG britânica Kidney
Research UK, pelo menos 60% das pessoas que recebem um rim podem ter a
expectativa de viver em média por mais 15 anos após o transplante.
Além de ter ajudado a salvar
vidas – inclusive com os mais 45 litros de sangue que já doou até hoje -,
Tracey já doou 16 óvulos, que permitiram a três casais ter filhos.
Foi fácil tomar essa decisão, diz
ela. “Não tenho vontade de ter filhos, então, pensei ‘Sou saudável, por
que não?’.”
Regeneração
Agora, ela espera doar parte de
seu fígado – e, de novo, para alguém que não conhece. Ela está ciente dos
riscos envolvidos. “O perigo é muito maior do que na doação de rim”,
afirma.
A taxa de mortalidade de uma
doação a partir do lóbulo direito do órgão é de uma morte a cada 200 pessoas e,
a partir do lóbulo esquerdo, de uma a cada 500.
Mas muitos doadores têm uma vida
longa e saúdavel após o transplante, diante da “incrível capacidade de
regeneração” do órgão, esclarece Tracey.
Quase imediatamente após a
cirurgia, o restante do fígado do doador começa a crescer, um processo
conhecido como hipertrofia e que continua por até oito semanas.
Tracey afirma não ter dúvidas de
que continuará a doar enquanto puder e espera fazer isso mesmo após morrer.
“Eu me registrei para dar meu cérebro para a ciência médica quando
partir”, diz ela.
Doações de cérebro são efetivadas
até 24 horas após a morte de uma pessoa e contribuem para o estudo de males
como, por exemplo, a demência.
Mas quais são as razões de Tracey
para doar órgãos – seja um cérebro ou um rim?
“É parte da minha natureza,
minha oportunidade de fazer algo de bom.”

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CEBID – Centro de Estudos em Biodireito

Equipe Cebid

Centro de Estudos em Biodireito
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