A UTI dos idosos

13 de janeiro de 2017

A UTI dos idosos

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Ela tinha 99 anos, três derrames cerebrais e um câncer de mama em sua história de vida. Uma pneumonia seguida de rebaixamento permanente do nível de consciência (por um provável quarto derrame) a levaram à UTI, onde permanecia o tempo todo inconsciente e dependente de aparelhos para respirar, e com a desanimadora chance de menos de 1% de terminar seus dias fora dali. Não seria tão espantoso se ela fosse um caso isolado, que tinha ido parar ali por acidente, por uma avaliação médica apressada ou pela insegurança dos familiares. Mas não era. Bastava olhar para os leitos ao seu redor para entender que algo muito errado estava acontecendo.

O paciente à sua frente tinha quase 90 anos e um câncer de próstata avançado, com metástases ósseas disseminadas, tão magro que podíamos perceber seus ossinhos em saliências sob o lençol. Ao seu lado, uma senhora de 87 anos com insuficiência renal crônica, dependente de hemodiálise, que tinha evoluído com mais um edema pulmonar (era a quarta vez que era internada na UTI nos últimos 4 meses). Ela respirava com a ajuda de aparelhos há mais de uma semana, sem qualquer indício de que um dia poderia se livrar deles. Do outro lado, outro senhor idoso, por volta dos 90 anos, padecia de uma insuficiência cardíaca tão grave que não era possível retirar drogas vasoativas (medicações endovenosas administradas continuamente para que o coração pudesse exercer minimamente seu trabalho). Ele provavelmente nunca retornaria para sua casa, ou mesmo para um quarto comum no hospital. E era assim, dia após dia, que presenciávamos idosos com doenças irreversíveis sendo colocados na UTI para que suas vidas fossem preservadas por mais tempo. A qualquer custo.
Esse não é um problema brasileiro, e sim mundial. Quanto mais tecnologia disponível, maiores as chances de um idoso com uma doença grave terminar seus dias numa UTI. Não se trata de preconceito contra idosos, e nem de tentar reservar vagas de UTI para pacientes mais jovens. A questão é que a UTI, por mais moderna que seja, não pode oferecer a esses pacientes (e aos seus familiares) o que eles realmente esperam: uma vida aceitável de volta. Essas pessoas acabam se vendo inconscientes, com tubos por todos os lados, longe de tudo o que lhes é mais caro, por não oferecermos a elas o que realmente precisam: a compreensão de que suas vidas estão chegando ao fim e que a Medicina não poderá reverter esse quadro. Não é crueldade ou frieza, pelo contrário: é preciso ter uma enorme compaixão e uma preocupação genuína com o bem estar dos pacientes terminais para iniciar uma conversa que lhes permita escolher se é realmente assim que eles querem passar seus últimos dias. É preciso coragem.
Uma revisão recente realizada por especialistas da University of New South Wales, na Austrália, descreveu que cerca de ⅓ dos pacientes terminais receberam tratamentos que não lhes proporcionaram qualquer benefício. Cerca de 77% receberam antibióticos desnecessários, tratamentos cardiovasculares, digestivos ou endocrinológicos não benéficos, diálise, radioterapia, exames desnecessários ou mesmo quimioterapia. Exames foram realizados até mesmo em pacientes com desejo expresso de não serem ressuscitados, caso apresentassem uma parada cardíaca.  Nada disso impediu que os pacientes viessem a falecer. Na verdade, a percepção geral é de que alguns desses tratamentos até mesmo aceleraram sua morte. Um cenário desolador.
Estima-se que metade dos idosos que morrem em UTIs poderia ter passado seus últimos dias em suas próprias casas, com maior conforto, e com o mesmo tempo de vida. A maior parte deles recebe tratamentos desnecessários por insistência de seus familiares, e não há muito o que os médicos possam fazer diante de uma família desesperada que se sente responsável pela preservação da vida de um ente querido. Médicos têm em suas mãos uma tecnologia quase infinita para manter corações batendo, rins funcionando, ou pulmões cumprindo sua missão. A questão é que manter um corpo em funcionamento nem sempre é sinônimo de preservar uma vida.
Aos 99 anos, ela entrou para essa triste estatística. Foram quase 40 dias de UTI, sem uma palavra, um abrir de olhos, uma despedida. Exatamente como muitos dos idosos que foram seus vizinhos durante esses longos e difíceis dias. Dificilmente a solução para essa realidade assustadora será rápida ou simples. Ela envolve uma compreensão ampla e contínua, tanto dos pacientes quanto dos familiares e médicos que os rodeiam, de que não é necessário lutar ferozmente contra a morte quando ela é inevitável. É mais inteligente e humano aceitá-la como parte da vida, e procurar ressignificar cada um dos nossos momentos finais. É mais coerente gastar nossas energias finais deixando legados, exprimindo nossos sentimentos para quem realmente os merece, priorizando o que nos é valioso. São essas as coisas que dão sentido às nossas vidas, e não o tempo em que mantemos nossos corações batendo.
UTIs são incríveis para um grande número de pacientes, que têm suas vidas restauradas e devolvidas, permitindo que voltem intactos para suas famílias e desfrutem de anos junto delas. Mas são terríveis e cruéis para aqueles que já cumpriram sua missão e cujas vidas não podem ser consertadas por tubos, drogas e aparelhos. Elas simplesmente não foram feitas para isso.
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CEBID – Centro de Estudos em Biodireito

Equipe Cebid

Centro de Estudos em Biodireito

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